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2025 | 14 de Agosto - 06 de Setembro

Exposição 'O que pode sentir um corpo' - Casa Corpo

São Paulo, Brasil

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Obras que participaram da exposição:​

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Esquerda QSL, da série 'US Mamas', 2025

Maquiagem sobre tela (políptico)

30 x 21 cm (cada)​

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Umbigos, 2025

Arame, costura, maquiagem e lençol hospitalar descartável

50 x 80 cm

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Casa Casulo, 2024

Arame, costura, maquiagem e lençol hospitalar descartável

200 x 60 x 60 cm​

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'A pele é o maior órgão do corpo humano, de modo que é possível dizer que há território de sobra para o sentir em extensão, mas também em profundidade. Superfícies se sobrepõem, contatos deixam rastros e surtem efeitos, sensações se misturam em demasia. Além de outras coisas, uma questão de dosagem. O quanto de muito pode ser demais? O quanto de pouco é considerado apenas resto?  

 

Algumas coisas que o corpo sente vêm do corpo, mas nem todas. Tateando as paredes da linguagem, busca-se uma espécie de contorno para aquilo que emana da casa que se habita em totalidade durante uma vida. No caso da presente exposição coletiva, que começa ao subir as escadas e ocupa o segundo andar da Casa-Corpo, dez artistas partem para a imagem para trazer à materialidade interessantes tentativas de dar - justamente - corpo a um sentir.

 

Alix Spell participa com quatro pinturas que formam e deformam corpos femininos, combinando múltiplas perspectivas e criando um trânsito simbólico entre o que está dentro e o que está fora. As pinceladas a óleo transmitem o interesse profícuo da artista em compreender profundamente a formação da subjetividade da mulher e todas as experiências que podem estar contidas nesse amplo campo de constituição de si.

 

Nas obras de Camila Alcântara, a artista trabalha com a técnica da colagem, compondo com bordados e modelagem em cerâmica fria. Numa espécie de montagem e remontagem de posições e composições com o corpo - ou corposições -, ela caminha com o peso de um amassado, mas também com a leveza de uma suspensão, a partir de linhas e braços fortes, bem como de silhuetas que se encaram. Esse corpo nunca só, sempre em interação com o outro, que o manipula, reprime ou encara de frente.

 

Fernanda Corsini propõe uma imersão n’amálgama corpo-natureza, flertando com o onírico e ouvindo a direção do desejo. Não há dúvida de que os saberes vêm todos desse único ser: do seio humano em plena erupção vulcânica, do encontro de flores no entrelaçar de atrações, das fendas profundas, ora geográficas, ora da poeta Safo, mas sempre orgânicas na tradução de uma pulsão. As camadas se sobrepõem numa gramática sensível própria, uma amostra de simbioses em tons de verde, azul, rosa e roxo.

 

No trabalho de Larissa Camnev, o corpo e seu lugar no espaço é um dos seus temas principais de investigação. A intimidade com o têxtil e com a moda é antiga e genética, desde sua bisavó, a ponto de ser possível afirmar que o tecido das peças e o tecido do corpo compõem, aqui, uma só trama. Nos limites da interlocução direta das obras da artista com seu próprio corpo - também obra -, que vemos nas fotografias expostas, identifica-se, em alguma medida, tudo aquilo que pode nos tornar mulheres. Pois sabemos, não nascemos como tal.

 

A artista Luiza Barbieri trabalha com cerâmica, pesquisa as possibilidades de interação nas relações humanas e criou peças inéditas para a proposta da Casa-Corpo. Experimentando com vidro e espelho, com texturas que se aproximam do aspecto da falha, a representação dos oócitos traduz uma experiência pessoal com o procedimento de congelamento de óvulos. As obras convidam o público à dualidade de olhar e não olhar, já que revelam, mas também camuflam; são frágeis e resistentes; refletem a imagem, mas também retêm o olhar.  

 

Mari Sperandio pesquisa o cuidado nas relações, pinta com maquiagem, trabalha com materiais delicados como tecido hospitalar e cria nuances sutis em tons rosados. Imagens ultrassonográficas metamorfoseiam-se em paisagens e manchas de uma autoinvestigação da saúde do corpo, mas também sobre ser mulher. Cuidado, proteção, segurança, conforto, padrões estéticos e pressões sociais, cabe tudo nessas obras.  

 

A composição de Marina Schroeder faz o olhar flutuar por seus Possíveis acessos. Suas pinturas falam de seus atravessamentos e de suas entranhas singulares, algo que exige ir bastante além da superfície. Vem à mente uma frase de Agnès Varda: “Se abríssemos as pessoas, encontraríamos paisagens”. Mas, se a cineasta é feita de praias em seu interior, sustenta-se a aposta de que as obras de Marina são feitas de um contínuo desabrochar de pétalas, contendo toda a ambivalência própria do existir.

 

Marcella Benita traz o movimento do corpo em sua obra que, logo no início da escada, dá boas-vindas à exposição coletiva. O gesto solto da pincelada em vermelho, a escorrer pela base transparente de acrílico, é combinado ao ato minucioso do bordado, que pausa o papel e acaba por criar um segundo movimento, agora de ondulação, na peça. A alternância entre o livre e o contido contém a medida do gesto de suas mãos e do ímpeto do corpo como um todo.  

 

Já Patricia Baik apresenta duas pinturas que nos mantêm suspensos em um outro plano, do qual se conhece pouco, mas do qual se tem certa ideia. As figuras um tanto etéreas que protagonizam suas obras nos lembram que o corpo pode ir além, chamando atenção para pequenos e grandiosos detalhes, marcas de uma conexão que escapa às palavras. Seja num arrumar de cabelos pela namorada ou nas marcas afetivas de sua história, o corpo espiritual cintila além dos pigmentos que o marcaram no tecido.

 

Por fim, a artista Tuca Chicalé Galvan compõe a mostra com três obras: Acasalada alada I, II e III, todas da série O primeiro universo pode conter solidão. Feitas com lã e linhas entrelaçadas com os dedos, sem o uso de agulhas ou outros equipamentos, já se pode compreender muito sobre esse corpo que sente e cria. O têxtil que chama o toque traz as tramas do fazer manual com cores que emanam sensações, atraem o olhar e pedem aproximação.

 

Assim se desenha o percurso traçado pelas obras da exposição coletiva da Casa-Corpo, onde é possível não apenas se deixar afetar pela ode aos sentidos, mas também permitir a convocação do corpo em sua totalidade. '

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Thaís Bambozzi 

Curadora

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